sábado, 16 de outubro de 2010

Outubro - mês da criança

Li este artigo e achei muito interessante colocá-lo aqui no blog para conhecimento de quem queira.


Contos de fadas, Bettelheim e o imaginário infantil

por Kelly de Souza | Infantil, Literatura, Psicanálise
Até onde se sabe, Rousseau, um dos mais importantes pensadores do Iluminismo francês, não era chegado aos contos infantis, banindo-os do currículo escolar em sua época por acreditar que as crianças já eram já muito privilegiadas pela imaginação. Certamente que Rousseau, inspirador de quase todos os grandes movimentos intelectuais a partir do século XVIII, não acertou em tudo. Ninguém acerta. Mais razão tinha o austríaco Bruno Bettelheim (1903-1990), psicólogo, educador, autor de mais de 17 livros e um dos mais importantes estudiosos da psicanálise infantil do século XX. “Os contos de fadas são portadores de mensagens importantes para o psiquismo consciente, pré-consciente ou inconsciente das crianças, qualquer que seja o nível em que funcionem”, escreveu ele.
A célebre obra de Bettelheim, A Psicanálise dos Contos de Fadas, publicada em 1975, talvez seja o ponto de inflexão da literatura infantojuvenil. Depois da publicação do livro, os contos de fadas passaram a gozar de maior respeito por parte de educadores e psicanalistas.
Essa é também a visão de Laura Sandroni, Mestra em Literatura Brasileira, Membro da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, e autora de várias obras, como Ao longo do Caminho (2003) e Grandes Poemas em Boca Miúda (2002). Para Sandroni, a obra de Bettelheim teve um efeito decisivo para a mudança de orientação dos pressupostos educativos sobre a Literatura Infantil, mostrando que os contos contribuem para o desenvolvimento pessoal das crianças, bem como para o enriquecimento de sua imaginação. “A Literatura Infantil, tal como existe em nossos dias, nasceu da evolução dos contos de fadas que substituíram os textos didáticos moralizantes escritos em épocas anteriores. Esses textos, considerados historicamente antecessores do gênero, negavam-lhes no entanto a qualidade de textos literários, que a fantasia dos contos tradicionais contribuiu decisivamente para lhes acrescentar”, explica Sandroni.
Mas a vida de Bettelheim não foi definitivamente um conto de fadas. Nascido em Viena, teve uma infância infeliz causada por várias carências, mas principalmente pelo longo declínio físico de seu pai, portador de sífilis. Logo Bettelheim apresentou sinais de depressão. Aluno brilhante, animado com o trabalho, graduou-se em filosofia, estudou a cartilha de Freud (depois seu amigo), mas era um jovem cheio de ódio por não seguir suas aspirações em função das obrigações financeiras e familiares. Por sua origem judaica foi enviado em 1938 para os campos de concentração (Dachau e Buchenwald) onde ficou por 11 meses, até que em 1939 conseguiu ir para os Estados Unidos onde em 44 se naturalizou.
Embora fosse reverenciado como um grande psicanalista, Bettelheim nunca recebeu qualquer formação psicanalítica acadêmica. Era um homem apaixonado pelas causas que envolviam crianças mentalmente perturbadas, tratando-as de maneira pouco ortodoxa em sua escola para crianças com distúrbios mentais graves (Orthogenic School). Com o crescimento de sua reputação, de tudo foi acusado um pouco: de ser agressivo com os menudos, de ir contra a opinião dos pais, de ser arrogante, e por aí vai. Ao mesmo tempo em que ganhava reconhecimento e sucesso por seus livros, técnicas pedagógicas, teses, ensaios e pensamentos, Bettelheim colecionava contraditórios e a ira de muitos estudiosos.
Logo depois das pesquisas que identificaram a Síndrome de Asperger (autismo), alguns psicólogos freudianos adotaram a teoria de que as crianças autistas tinham algum problema com os pais, principalmente com a mãe, e por isso não progrediam. O pioneiro em adotar esse pensamento nos EUA foi Bettelheim, que passou a “acusar” as mães dos deficientes de serem frias, sem sentimentos (“mães geladeiras”). Recebeu críticas de todos os lados, embora suas teorias tenham sido assimiladas e seguidas por vários anos. A depressão e o sufoco de uma carreira profissional conturbada e contestada, além da doença de sua esposa que morrera de câncer em 1984, levaram Bettelheim ao suicídio em 1990, aos 86 anos, para grande surpresa da comunidade científica. Mesmo após a sua morte, pais e psicanalistas o acusaram de praticar experiências exageradas, ou sem comprovação qualificada. A biografia “Bettelheim: A life and a legacy” (1996), de Nina Sutton, destrincha esse calvário do austríaco em detalhes.
Mas, se as teorias sobre autismo de Bettelheim foram ao longo dos anos contestadas, no que diz respeito ao “poder das fadas” no imaginário infantil nunca houve dúvidas sobre suas afirmações, sendo seus livros e estudos até hoje uma fonte de referência para a educação e para a psicanálise infantil. “A aquisição de habilidades, incluindo a capacidade de leitura, perde o valor quando o que se aprende não acrescenta nada de importante à nossa vida. É esta exatamente a mensagem que os contos de fadas trazem à criança, de múltiplas formas: que a luta contra graves dificuldades na vida é inevitável, mas se o homem não se furtar a ela acabará por dominar todos os obstáculos e sair vitorioso”, escreveu Bettelheim.
“A menina do Chapeuzinho Vermelho foi o meu primeiro amor. Sentia que se pudesse ter-me casado com ela teria conhecido a verdadeira felicidade”. Essa afirmação de Charles Dickens, como ressalta Bettelheim, indica que ele, como milhões de crianças pelo mundo fora também foi “infectado” pelos contos infantis. Muitos outros autores, como Otto Rank, Ernest Jones e Freud (claramente explicado em A Interpretação dos Sonhos), demonstraram que livros com narrativas assemelhadas aos contos de fadas têm grande efeito na formação da petizada. No Dia da Criança, é sempre bom lembrar a importância que a “fadinha” tem na mente infantil, não importando se hoje ela usa óculos e se chama Harry Potter.
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Kelly de Souza é jornalista colaboradora da Revista da Cultura e Blog da Cultura. Compulsiva por literatura, chocolate e escrita - não necessariamente nessa ordem.

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